13 de jul. de 2012

Desenvolvimento Humano: Primeira Infância


PRIMEIRA INFÂNCIA

            Segundo Jean Piaget, quando a criança nasce há indissociação entre seu corpo e o ambiente no qual está imersa. Porém, devido à capacidade que tem para reagir ao meio, à chupeta, ao alimento, às pessoas etc., a noção de objeto vai sendo construída durante os seis estádios do período sensório-motor.
             A elaboração desta noção vai depender do equilíbrio entre a assimilação e a acomodação, ou seja, da incorporação dos dados da realidade aos esquemas disponíveis do sujeito (assimilação) e da modificação dos esquemas para assimilar os dados novos (acomodação). Mas nem sempre estas duas funções estão totalmente equilibradas.
             Até o terceiro estádio, não há separação nítida entre assimilação e acomodação. Por isso, o equilíbrio completo entre as duas funções não é possível. O bebê não pode interagir com o ambiente, de forma intencional. Se o objeto é assimilado ou conhecido (“isto serve para ser olhado”, “isto serve para ser sugado”), tal fato acontece apenas no momento em que é acomodado e assimilado ao esquema. O objeto nada mais é que um produto da ação do sujeito, sem distinção entre ambos.
              No primeiro e no segundo estádios, quando um objeto desliga-se do indivíduo porque desaparece de seu campo visual, ele não é, geralmente, procurado.
              Já no terceiro estádio, a criança limita-se a olhar o local onde viu pela última vez, conservado, portanto, apenas a atitude esboçada anteriormente. Se não houver reaparecimento do objeto, haverá sua renúncia. Quando o bico do seio desprende-se da boca do recém-nascido, desaparecendo do seu campo perceptivo visual, tátil, gustativo, etc., a criança mostra desagrado através do choro ou reproduz os movimentos de acomodação e assimilação dos lábios e da boca, realizados anteriormente no ato de sucção, para fazer reaparecer as sensações e o espetáculo perdido.
              Do quarto estádio em diante, intensifica-se a separação entre a assimilação e a acomodação, começando a haver equilíbrio entre ambas. Isto significa que o recém-nascido explora as características do objeto ou se acomoda – olha, apalpa, cheira, vira, etc. – antes de assimila-lo. Portanto, há um distanciamento entre o sujeito e o objeto.
               A partir deste estádio, o bebê não prolonga os movimentos esboçados de acomodação quando o objeto desaparece ou se distancia em relação ao seu campo perceptivo visual, tátil, olfativo,etc., mas realiza uma acomodação através de uma exploração ativa dos meios (esquemas) para vencer ou afastar obstáculos que o separam do objeto. Um bebê que possui vários esquemas – pegar e sugar; pegar e puxar; olhar e pegar – seleciona os mais adequados na forma de meios para atingir o objeto – fim - que está fora do seu alcance.  
               Assim, pode separar os esquemas de olhar, pegar, puxar e combina-los para atingir a chupeta e suga-la. Nesta situação, o comportamento é intencional, marcando o início da inteligência prática. Nota-se interesse e atenção do sujeito diante dos objetos antes de tentar assimila-los, ou seja, conhece-los ou utiliza-los.
                Embora os avanços na conquista do objeto, como algo exterior ao sujeito, comecem a ocorrer a partir do quarto estádio.
                A passagem de um estádio para o outro é percebida através do comportamento infantil, no sentido de procurar um objeto perdido. Ora, a criança só procura um objeto escondido quando supões que ele continua existindo em algum lugar, embora não possa vê-lo, tocá-lo etc.

Primeiro estádio (0 a 1 mês) – A criança não procura objetos desaparecidos

              Neste estádio não existe objeto material ou humano como algo distinto do indivíduo.     
              O recém-nascido encontra-se imerso em um mundo de impressões visuais, gustativas, sonoras, táteis, etc.
              Nas palavras de Piaget não existe “(...) nenhuma consciência do eu, isto é, nenhuma fronteira entre o mundo interior oi vivido e o conjunto das realidades exteriores”.
              O bebê só toma conhecimento de um objeto levado à sua boca em função das sensações gustativas ou cinestésicas experimentadas. Também não tem conhecimento das pernas, braços, mãos, como domínio de seu próprio corpo. As mãos chegam a provocar susto ao atingirem ocasionalmente seu rosto.
               Se um impressão como o seio ocupa o campo perceptivo do bebê e seus lábios ficam em contato com ele, pode haver a ativação do esquema reflexo de sucção. Porém, neste estádio que o jeito não tem consciência de si mesmo, nem da realidade que o cerca.
               O seio – fim – e a ação – meio – formaram uma totalidade que é o ato de mamar. A vida afetiva do bebê fica circunscrita às emoções primárias de prazer, desprazer etc.
               Para Flavell “(...) um reflexo é sempre ativado em bloco, como uma totalidade rígida. Se puder assimilar um objeto ou acomodar-se a ele sem se alterar, ele o faz. Mas se as propriedades do objeto levarem à necessidade de alguns movimentos acomodativos novos (...) a adaptação torna-se impossível”.
               Naturalmente, com o decorrer do tempo, os atos assimilativos reflexos começam a sofrer pequenas alterações, em função da peculiaridade das coisas. Sabe-se que uma criança suga melhor o seio após os primeiros dias de nascimento, moldando os movimentos da sua boca às características do bico do seio.
              Porém, segundo Piaget, esta acomodação consiste simplesmente num ajustamento desses processos aos pormenores das coisas assimiladas, permitindo uma adaptação do próprio organismo aos aspectos mais externos e materiais.
              Se uma impressão visual, gustativa ou tátil desaparece do universo infantil, não ocorre nenhuma busca ou exploração consciente por parte da criança. Ou o quadro entra logo no esquecimento, isto é, no nada afetivo, ou e lamentado, desejado.
              Neste último caso, o comportamento utilizado para reencontra-lo consistirá na repetição de esquemas já dominados pela criança: choro, movimentos de pernas, contorção do corpo, movimentos generalizados.

Segundo estádio (de 1 a 4 meses) – A criança tem encontros fugazes com objetos desaparecidos, mas não os procura intencionalmente

              Como no estádio anterior, a criança continua submersa num conjunto de impressões sensoriais, não conseguindo separar seu próprio corpo do ambiente que a cerca.
              Se um quadro visual, gustativo, tátil etc. desaparece, o organismo faz um esforço para conservá-lo através de assimilação reprodutora.
              Se a chupeta, reconhecida como algo que serve para ser sugado, cai da boca do bebê, há repetição do esquema de sugar. Neste estádio, o organismo não pode ativar outros esquemas como o de pegar, puxar, etc. frente à chupeta, porque só o esquema de sugar dá significado à chupeta e pode assimilá-la. Em outras palavras, a ação de sugar confere existência à chupeta.
              Piaget, entre outras descrições, relatou que Jacqueline, aos 2 meses, conseguia olhar e acompanhar o deslocamento de sua própria mãe, até seu total desaparecimento. Contou, também, que a menina continuava a olhar na mesma direção onde a mãe fora vista a primeira vez, como se, com isso, esperasse traze-la de volta.
              Este comportamento infantil, de aparente procura do objeto, apóia-se não só em progressos relativos ao esquema visual – exploração visual – como também na crença de que a repetição de uma ação pode trazer de volta um quadro perceptivo desaparecido, mas ainda à disposição. É a atitude mágico-fenomenista.
               Neste estádio, a criança reencontra objetos perdidos, ocasionalmente, e não como conseqüência de uma procura intencional. Quando ocorre uma pequena exploração para o reencontro, estas ações são fugazes, “lampejos momentâneos”, no entender de Baldwin.
               O lactente, ainda que seja centro de inúmeras influências sociais, carinhos, cuidados, pressões etc., reage às pessoas da mesma forma que aos objetos. Para ele, os estados afetivos de prazer, sucesso, fracasso etc. dependem d própria ação e não de relações de trocas com outras pessoas. Se chora, obtém o alimento, por isso sua ação de chorar é responsável pelo prazer e pelo aparecimento do alimento.
                A afetividade manifesta uma espécie de egocentrismo geral, onde o bebê tem interesse apenas pelo seu próprio corpo e pela sua própria atividade. Para Piaget, podemos até chamar esta afetividade de narcisista, mas devemos ter bem claro de que é um narcisismo sem Narciso, porque não existe consciência pessoal.



Terceiro estádio (de 4 a 8 meses) – A criança chega até o objeto desaparecido, mas não existe um comportamento intencional de busca

         No terceiro estádio inicia-se a separação entre o sujeito e o objeto. Quando a chupeta que está sendo sugada cai da boca da criança, o comportamento não é de indiferença mas de certo desconforto. O bebê esboça uma procura do objeto desaparecido de seu campo perceptual visual, tátil, gustativo, reproduzindo os esquemas interrompidos na esperança de, com esta atividade, trazer de volta as sensações experimentadas e perdidas. O bebê espera encontrar a chupeta, uma vez que desencadeou as ações de olhar e sugar que estão de certa forma fundidas.
De acordo com Piaget, “Uma diferença essencial opõe (...) tais comportamentos À verdadeira busca dos objetos. Esta última é ativa e faz intervir movimentos que não se limitam a prolongar, unicamente, a ação interrompida, ao passo que nos comportamentos presentes, ou há uma simples expectativa ou então a pesquisa continua meramente o ato de acomodação. Nestes dois últimos casos o objeto esperado é, portanto, relativo à própria ação”.
Piaget descreveu inúmeras situações onde ocorreram comportamentos típicos deste estádio de desenvolvimento. Entre eles, relatou que Luciene, aos 8 meses, foi observada buscando sistematicamente com os olhos tudo que deixava cair. A busca do objeto era feita a partir do local onde ele caíra. Isto significa que a criança continuava repetindo o esquema de olhar, usado momentos antes, na expectativa de que o ato de seguir com olhos trouxesse o espetáculo de volta.
Piaget relatou, também, que Luciene, numa outra situação, buscava com maior interesse reencontrar objetos caídos que haviam estado anteriormente em suas mãos. Ao acompanhar o deslocamento com os olhos e com as mãos, Luciene esperava que o gesto faria reaparecer o quadro visual perdido.
Esta situação revelava um progresso em relação à anterior, porque o objeto era procurado onde havia caído e não mais no local onde havia sido visto pela primeira vez. Porém, a finalidade da ação era, ainda, prolongar um espetáculo visual-tátil que dava prazer e não realizar uma acomodação adaptativa.
Os exemplos apresentados sugerem que os objetos chamam a atenção da criança, mas ela não tem condições para explora-los e busca-los com apoio na coordenação de esquemas 9olhar, pegar, sugar etc.). O interesse incipiente leva à procura dos objetos desaparecidos, mas só através do prolongamento de movimentos já ativados: se o caminho percorrido por estes movimentos for uma linha reta, poderá até levar onde eles estão escondidos (cobertos por um pano, por exemplo) no final do percurso. Portanto, o encontro é, praticamente, ao acaso, propiciado pela continuidade dos movimentos dos olhos.
Na interpretação de Baldwin, esse fato mostra que a criança não está fazendo uma busca real, “(...) apenas continua a fazer o que estava fazendo, quando perdeu o objeto”. E então, para ela, o movimento esboçado continua responsável pelo aparecimento daquilo que foi perdido.

Quarto estádio (de 8 a 12 meses) – A criança procura objetos desaparecidos através dos meios ou esquemas adequados à situação

Neste estádio o objeto destaca-se do sujeito, uma vez que provoca no bebê um conjunto de esquemas exploratórios ou acomodadores de olhar, virar, deslocar etc., antes de ser assimilado. Portanto, os esquemas não são fundidos, como no estádio anterior, mas coordenados.
Assim, olhar pode combinar com pegar, ou com sugar, dependendo das características do objeto que está sendo investigado. A conduta passa a ser intencional ou inteligente, havendo um intervalo entre a necessidade de incorporar o objeto e a consumação do ato assimilatório.
Diante de um objeto, a criança pode ativar primeiro o esquema de olhar, depois o de pegar e, finalmente, o de sugar, numa seqüência de ações marcadas pela atenção e pelo interesse.
A respeito deste estádio, Piaget afirmou que há um progresso na consolidação dos objetos quanto À acomodação de uma série de esquemas visuais, táteis etc. que implica a coordenação de múltiplos esquemas primários. Na exploração do objeto, de agora em diante, os meios são escolhidos em função de fins desejados (conhecer, usar, procurar etc.) e não aleatórios, como anteriormente.
Nas palavras de Piaget, “(...) a criança já não se limita a seguir com os olhos ou com a mão qualquer coisa em movimento: passa a unir exploração visual à exploração tátil. Ora, essa coordenação de duas ou mais séries distintas de acomodações reforça indubitavelmente a consolidação e a exteriorização do objeto (dissociação entre o objeto e a ação do sujeito)”.
Exemplificando, podemos dizer que, se um alvo desejado á impedido por um obstáculo qualquer, a criança adia a posse deste alvo e procura meios para vencer ou contornar essa dificuldade. Desta forma, quando o bebê está diante de alguma coisa que lhe interessa, mas que está fora de seu alcance, agarra a mão do adulto e a impele na direção procurada. Existe uma intenção nítida de remover o obstáculo (distância) que impede o acesso ao objeto. Há uma busca ativa com adiamento da ação final – pegar o objeto – porque são desencadeadas ações intermediárias – pegar e impelir com a mão.
Diante de um objeto como, por exemplo, uma bola que desliza alojando-se sob um sofá (A), a criança que acompanhou os deslocamentos da bola é capaz de repetir os movimentos da mesma, vencendo a distância e apanhando o objeto. Porém, se a bola desloca-se de sob o sofá (A) para sob a poltrona (B), não é procurada neste lugar, mas no primeiro (A). O sujeito não pode combinar a seqüência de deslocamentos que vão do sofá (A) até a poltrona (B) porque se fixou no primeiro momento em que obteve sucesso e ignorou o segundo momento.
Os avanços cognitivos deste estádio são acompanhados de avanços sociais e afetivos. Os objetos físicos e humanos começam a ser percebidos como externos ao sujeito. A inquietude que a criança experimenta em relação às pessoas estranhas sugere que estas são elementos que precisam ser compreendidos, da mesma forma que os elementos físicos.
As pessoas chamam a atenção da criança porque suas reações são diferentes das dos objetos físicos. Quando um bebê chora para obter conforto, as pessoas podem reagir dando-lhe resistência (repreendendo verbalmente, com movimentos de desagrado etc.).
Portanto, a criança pode sentir que, dependendo de sua conduta em relação ao outro – meio – pode obter resultados como prazer, conforto, sossego, segurança, asseio etc. A ação do choro não é mais a responsável pelo seu conforto. A interação com o outro gera não só este tipo de conhecimento, mas propicia modelos sociais que são copiados e imitados, desencadeando um novo tipo de comunicação social.
Junto à comunicação feita com ajuda (gestos, mímicas) surge uma comunicação incipiente com o apoio de palavras. A palavra, copiada através da imitação do outro, consiste numa parte do conjunto de ações que conferem significado às coisas.
Se a criança ouve o som “miau” ou “ga-to” à medida que passa a tocar um gato, a sentir a lisura de seu pêlo e a agudeza de suas garras, passa, num determinado momento, a designar todo o contexto relativo a esse animal pelas palavras “miau” ou “ga-to”. Porém, a palavra não dispensa o contato com o outro e é muito pobre como instrumento de comunicação social.

Quinto estádio (de 12 a 18 meses) – A criança procura ativamente o objeto desaparecido do seu campo visual, tátil etc., através da descoberta de novos meios

Neste estádio consolida-se a idéia de que o objeto é algo externo ao sujeito, embora ainda não possa ser representado. Diante de qualquer novidade, o organismo procura os esquemas mais apropriados para compreendê-la e assimilá-la.
Para ser compreendido, um objeto novo apresentado ao sujeito sofre o impacto de inúmeras ações exploratórias. Uma palavra nova provoca inúmeros fonemas que podem ser combinados imitando o modelo ouvido. Uma situação-problema – alcançar um objeto distante – leva a uma experimentação ativa dos esquemas mais adequados para a combinação que conduzirá À adaptação sensório-motora.
Em todas estas situações, observa-se que os esquemas podem ajustar-se mutuamente e a criança pode examinar de forma mais eficiente os pormenores dos objetos sobre os quais exerce sua ação. Em todas estas situações ocorre equilíbrio entre a assimilação e a acomodação.
Os comportamentos exploratórios mais ou menos causais cedem lugar a comportamentos exploratórios nitidamente intencionais. Ao tentar virar uma caixa, por exemplo, o bebê age sobre ela de várias formas, procurando verificar até que ponto estas ações conseguem desloca-la.
A criança descobre, através de comportamentos como estes, que ela tem poderes para vencer a resistência que os objetos oferecem à sua ação, para descobrir como eles funcionam, para que servem etc.

Sexto estádio ( de 18 meses em diante) – A criança procura ativamente o objeto desaparecido através da invenção de novos meios

A elaboração da noção do objeto como algo separado do sujeito é concluída neste estádio, devido          à mobilidade e à interiorização dos esquemas.
O sujeito pode construir a imagem de uma bola, por exemplo, evocando com esta imagem as ações que executou sobre ela: chutar, atirar, rolar etc., assim como imaginar os deslocamentos do objeto no espaço.
Isto acontece porque o objeto continua existindo na mente do sujeito, embora esteja ausente de seu quadro perceptual. Por isso, a criança não se desespera quando vê a mãe saindo por uma porta ou quando sua chupeta desaparece sob o travesseiro, pois já sabe que estes objetos continuam existindo e se encontram em algum lugar no espaço.
Nos estádios anteriores, a criança teve oportunidade de executar efetivamente ou de acompanhar movimentos de objetos em várias direções: em linha reta, fazendo contornos, realizando inclinações para a direita ou esquerda, voltando ao ponto de partida etc. Portanto, no sexto estádio, será capaz de representar ou imitar internamente todo este conjunto de deslocamentos, inventando um percurso para localizar o objeto ausente.
Para ilustrar estes avanços na cognição infantil, Piaget descreveu o comportamento de Jacqueline, quando tinha 1 ano e 6 meses, nestes termos: “Ela (...) atira uma bola para debaixo do sofá. Mas em vez de abaixar-se logo procura-la no chão, observa o lugar, compreende que a bola deve ter atravessado o espaço situado sob o sofá e caminha a pé para ir procura-la atrás do móvel. Porém, tendo uma mesa À sua direita e estando o sofá encostado a uma cama do lado esquerdo, Jacqueline começa por voltar as costas ao local onde a bola desapareceu, depois contorna a mesa e finalmente, chega atrás do sofá, atingindo diretamente o bom lugar, por conseguinte ela fechou o círculo por um itinerário diferente do que foi coberto pelo objeto, e elaborou destarte um ‘grupo’, através da representação do deslocamento invisível da bola e do ‘desvio’ a efetuar para reencontra-la”
Este relato parece indicar que Jacqueline chegou à conclusão de que existe apenas uma bola que ocupou uma infinidade de posições e realizou trajetos variados. Parece que houve compreensão súbita da situação, a partir do momento em que a menina localizou o objeto-bola e seu próprio corpo no espaço, imaginando uma espécie de mapa da situação que permite ao sujeito realizar mentalmente um grupo de deslocamentos.

O egocentrismo

A criança recém-nascida não tem consciência do mundo físico e social como algo estável, externo e distinto do mundo interno. O universo é constituído de quadros perceptivos que desaparecem e reaparecem de um modo caprichoso. A indiferenciação entre o sujeito e suas impressões sensoriais causadas pelo objeto constitui o egocentrismo no bebê.
Nas palavras de Piaget, o universo do recém-nascido é “(...) um universo sem objetos, é um universo em que o eu se absorve nos quadros externos, pelo fato de ignorar a si próprio (...)”.
O egocentrismo diminui à medida que a criança vai separando seu próprio corpo dos objetos e termina quando constrói a noção de objeto. Se quisermos colaborar com a criança neste processo, devemos dar-lhe condições para que manipule uma variedade de objetos.
Temos, porém, que oferecer ao organismo – aos esquemas – o alimento intelectual na quantidade certa e no momento adequado. Detectamos este momento e que alimento melhor atende às necessidades infantis através da observação da conduta da criança frente ao ambiente.

Vida social e afetiva da criança


Sentimentos interindividuais – Com o domínio da noção de objeto permanente, há uma separação do “eu corporal” em relação ao outro, dando início a um sistema de trocas sociais e afetivas. Essas trocas, porém, não são genuinamente sociais, pois são caladas, sobretudo, na imitação de gestos.
Assim, a imitação do ato da mãe de tocar o rosto do bebê gera-lhe prazer e leva a criança a repetir este gesto na própria mãe. Por isso, nesta fase, ocorre mais troca de ações do que de intenções. Embora tais afetos possam ser evocados juntamente com a imagem de mãe, são pouco duradouros.
Sentimentos intra-individuais – A criança começa a valorizar a si mesma a partir dos sucessos e fracassos de suas próprias ações. Na aprendizagem do ato de andar, por exemplo, experimenta prazer e sucesso ao conseguir dar vários passos, sem uma queda. A autovalorização gera maior confiança em si e facilitará o prosseguimento da aprendizagem.
A criança inicia a autodesvalorização ao experimentar impressões desagradáveis, decorrentes dos insucessos ou das quedas. Isto repercutirá no processo de aprendizagem, levando-o a um retardamento.
A regra motora, em seus primórdios, confunde-se com o hábito. Este abrange uma seqüência de ações que, ritualizadas e cristalizadas, conduzem a uma adaptação, como o hábito de andar, por exemplo.
Para Piaget, um hábito transforma-se em regra quando há consciência da regularidade na sucessão de ações, acompanhada do sentimento de obrigatoriedade. Isto só ocorre quando existe uma oposição à realização das seqüências de ações e, especialmente, quando o indivíduo sai de si mesmo para conviver com o outro. Em outras palavras, a criança, ao nascer, não é boa nem má do ponto de vista intelectual ou moral, mas é “dona de seu destino”.
A intencionalidade e regularidade da atividade motora não visa, inicialmente, uma verdade, mas um resultado objetivo ou subjetivo. Dependendo das circunstâncias ambientais, esta regularidade torna-se racional ou lúdica.
O jogo – No início do desenvolvimento sensório-motor é fácil separar a ação adaptativa da ação lúdica. Um bebê pode repetir um gesto, como, por exemplo, o de pegar, para incorporar um objeto ou simplesmente para exercitar um esquema recentemente adquirido a fim de obter prazer.

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